segunda-feira, 20 de agosto de 2007

E agora?

"Na cadeira a enrolar os cigarros de mortalha e a pingar a cada hora a mesma frase num som de badalo de relógio
- as coisas são o que são e não o que queremos que sejam (...)

Como quase toda a gente confesso que já me passou pela cabeça pôr fim aos meus dias mas hesito sobre qual deles começar. (...)

Fiquei especado ao ires-te embora e eu com o peso do mundo inteiro nas costas, eu quase uma pena de pavão transformada em lágrima azul amarela verde encarnada [...] eu sem sentir a pancada, sem escutar as vozes debruçadas para o meu corpo [...] o piano e calou-se antes de eu ter tempo de apoiar a cabeça nas mãos perguntando
-E agora?
às gotas que escorrem na vidraça."

António Lobo Antunes, crónica "Eugénio", in Visão

Verdes Anos

"Era o amor que chegava e partia
Estarmos os dois era um calor que arrefecia sem antes nem depois
Era um segredo sem ninguem para ouvir
Eram enganos e eram medos
A morte a rir dos nossos verdes anos.
Foi o tempo que secou a flor que ainda não era
Como o outono chegou no lugar da Primavera
O nosso sangue corria
Por dentro de sermos sós
Nascia a noite e era dia
E o dia acabava em Nós!"

Carlos Paredes