"Na cadeira a enrolar os cigarros de mortalha e a pingar a cada hora a mesma frase num som de badalo de relógio
- as coisas são o que são e não o que queremos que sejam (...)
Como quase toda a gente confesso que já me passou pela cabeça pôr fim aos meus dias mas hesito sobre qual deles começar. (...)
Fiquei especado ao ires-te embora e eu com o peso do mundo inteiro nas costas, eu quase uma pena de pavão transformada em lágrima azul amarela verde encarnada [...] eu sem sentir a pancada, sem escutar as vozes debruçadas para o meu corpo [...] o piano e calou-se antes de eu ter tempo de apoiar a cabeça nas mãos perguntando
-E agora?
às gotas que escorrem na vidraça."
António Lobo Antunes, crónica "Eugénio", in Visão

