domingo, 6 de julho de 2008

Mágico no Peito

"Um dia tudo acaba, Sem perceberes porquê, num acorde de guitarra vês o mundo mas ninguém ninguém te vê. As sombras que falam, te ouvem e dizem: eu sou a noite.
Então sentes o frio de uma qualquer cidade aberta, sabes que as ruas estão contigo, só o teu corpo está em parte incerta. O vento que gritas, mais alto que o nome, que o medo de ti...
Desenhos, desejos, nos lábios, no sangue de uma parede qualquer.
E sobre a mesa, um mar fechado, uma aguarela feita de luz, um passado nunca acabado, e um beijo que alguém depôs. Palavras, traídas, que fogem e dizem: não me deixes nunca.
Aqui, o tempo não é tempo é só o chão que ninguém pisou. Trazes um louco no pensamento e um verão que se eternizou. Estradas que soltas dos olhos, dos mundos que trazes em ti..."

*

vou de novo, dentro de um casaco azul e verde... àquela estação de comboios...foi certamente a primeira estação de comboios do mundo..e ainda não existia naquele novembro. e vou, de novo,
com as mãos muito transpiradas e muito frio no corpo todo...o medo a sair-me do corpo...com medo que não estivesse lá. com medo do que diria. -e se não estiver lá?- e estava lá. (é mentira que não se pode apaixonar por uma pessoa duas vezes) pode apaixonar-se todas as vezes, todos os dias, desse novembro... todas as manhãs acordadas, ou noites a adormecer. só porque se olha para ela, como se fosse a primeira vez... e a primeira vez foi a certeza...para quê fugir?


ele tinha aquelas calças verde tropa, com os bolsos dos lados, e estava mais alto...parecia, ao longe... e estava com medo, mãos suadas, o corpo todo com frio... -e se eu não fosse? ele tinha-me magoado, ou ele achava que sim.. o que me ia dizer? e se eu não fosse?...- e eu fui... mãos suadas, já sem frio no corpo...os dois a andar, parámos no meio da linha e vi que ele não estava mais alto...ou então tinhamos crescido os dois.


vi que ainda encaixava no abraço dele, vi que não ia desaparecer, ia ficar sempre ali, naquele abraço. era aquele o meu lugar no mundo, era o dele, outra vez... a mesma redoma a proteger-nos. ele encontrou-me desta vez, e pode nunca mais encontrar.

agora
só penso nele quando ele pensa em mim... isso posso jurar-to porque só me lembro dele quando dou conta que ele está a pensar em mim. e se estiver a dormir e acordar, e ficar muito quieta, demoro sempre um tempo até perceber o que é que me fez acordar... e os poucos, sinto que foi ele, por estar a dormir e a sonhar comigo. foi o que aconteceu naquela noite.


fiquei muito quieta até perceber porque tinha acordado, e depois senti e fiquei ainda mais quieta para não reabrir a ferida... e depois levantei-me... sentei-me num daqueles banquinhos pequenos que não servem para nada e acendi um cigarro. enquanto sentia tudo o que foi a minha vida, que estava a dormir e a sonhar comigo naquele momento. a minha vida.

(NÃO SE VÊ E EM MIM QUASE NÃO CABE) há muito tempo. tanto que não se diz... porque é muito e já parece quase mentira. um dia conto-te a história do amor da minha vida. um dia escrevo-a num livro, para mim, para eu a ler como se fosse a história de outra pessoa. vou lê-lo até já não acreditar que foi comigo... com ele... talvez o leia quando acreditar em histórias de amor.

talvez até lhe escolha um final feliz. tão feliz que não se diz.

terça-feira, 1 de julho de 2008

"E, amor a amor, ou livro a livro, amemos"

Quer pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
por nós, quer-nos, oprime-nos.
Não só quem nos odeia ou inveja
nos limita e oprime: quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
de afectos, tenha a fria liberdade
dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
é livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.



Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta. (...)
Falso que seja, a dádiva
é verdadeira. ACEITO,
cerro os olhos: é bastante.
Que mais quero?

Ricardo Reis

Pudesses tu...

...entender que nada mais há para procurares em mim.
Que te sou perto só porque não te sei ser longe e que te sou porto de abrigo sabendo-o por ti e por mim na falta que tens de te saberes destas coisas ou na capacidade de fingires que não as sabes.
Pudesses tu entender, e eu conseguir e querer-te explicar, que o colo que te posso dar nem sequer tem força para existir, apenas está cá porque te pertence.
Soubesses tu, se quando vens te deixasses ir vazio, que nada há a não ser tudo aquilo que me pedires na falta da força de ter algo mais para dar.
Que queres mais, agora que me levaste, mesmo não me tendo?
Sendo-te eu e tu só te sendo.
Sim, não me tens.
(não com a força que me tenho em ti)
Dei-te tudo o que pude. Acho até que me roubei para te dar.
Às vezes, chego a pensar que te queres de volta, que me queres roubar o que te tenho em mim.
Se tu soubesses...não o farias.
O que te tenho em mim é muito mais do que és, muito mais do que te podes ter.

E agora...
Agora nao te chegues assim depois de me fugires.
Não me toques no ombro como quem chega sem ser esperado, que o susto do coração parado não é igual ao do saber-te perto.
Não te chegues agora que te estava a obedecer na ordem de me afastar.
Mais uma destas e matas-me.
Mais uma destas e nunca me vou ter, nem por um bocadinho, na falta de tempo de te conseguir ter menos.


"Finally he said, I have had word from – and here he name the dear name – that I shall not come again. I saw the dear face and heard the unspoken words, No need to go to him again, even were it in your power.
(...)
Nothing is left to tell.

Pause.

Knock." Samuel Beckett