Então sentes o frio de uma qualquer cidade aberta, sabes que as ruas estão contigo, só o teu corpo está em parte incerta. O vento que gritas, mais alto que o nome, que o medo de ti...
Desenhos, desejos, nos lábios, no sangue de uma parede qualquer.
E sobre a mesa, um mar fechado, uma aguarela feita de luz, um passado nunca acabado, e um beijo que alguém depôs. Palavras, traídas, que fogem e dizem: não me deixes nunca.
Aqui, o tempo não é tempo é só o chão que ninguém pisou. Trazes um louco no pensamento e um verão que se eternizou. Estradas que soltas dos olhos, dos mundos que trazes em ti..."
*
vou de novo, dentro de um casaco azul e verde... àquela estação de comboios...foi certamente a primeira estação de comboios do mundo..e ainda não existia naquele novembro. e vou, de novo,
com as mãos muito transpiradas e muito frio no corpo todo...o medo a sair-me do corpo...com medo que não estivesse lá. com medo do que diria. -e se não estiver lá?- e estava lá. (é mentira que não se pode apaixonar por uma pessoa duas vezes) pode apaixonar-se todas as vezes, todos os dias, desse novembro... todas as manhãs acordadas, ou noites a adormecer. só porque se olha para ela, como se fosse a primeira vez... e a primeira vez foi a certeza...para quê fugir?
ele tinha aquelas calças verde tropa, com os bolsos dos lados, e estava mais alto...parecia, ao longe... e estava com medo, mãos suadas, o corpo todo com frio... -e se eu não fosse? ele tinha-me magoado, ou ele achava que sim.. o que me ia dizer? e se eu não fosse?...- e eu fui... mãos suadas, já sem frio no corpo...os dois a andar, parámos no meio da linha e vi que ele não estava mais alto...ou então tinhamos crescido os dois.
vi que ainda encaixava no abraço dele, vi que não ia desaparecer, ia ficar sempre ali, naquele abraço. era aquele o meu lugar no mundo, era o dele, outra vez... a mesma redoma a proteger-nos. ele encontrou-me desta vez, e pode nunca mais encontrar.
agora
só penso nele quando ele pensa em mim... isso posso jurar-to porque só me lembro dele quando dou conta que ele está a pensar em mim. e se estiver a dormir e acordar, e ficar muito quieta, demoro sempre um tempo até perceber o que é que me fez acordar... e os poucos, sinto que foi ele, por estar a dormir e a sonhar comigo. foi o que aconteceu naquela noite.
fiquei muito quieta até perceber porque tinha acordado, e depois senti e fiquei ainda mais quieta para não reabrir a ferida... e depois levantei-me... sentei-me num daqueles banquinhos pequenos que não servem para nada e acendi um cigarro. enquanto sentia tudo o que foi a minha vida, que estava a dormir e a sonhar comigo naquele momento. a minha vida.
(NÃO SE VÊ E EM MIM QUASE NÃO CABE) há muito tempo. tanto que não se diz... porque é muito e já parece quase mentira. um dia conto-te a história do amor da minha vida. um dia escrevo-a num livro, para mim, para eu a ler como se fosse a história de outra pessoa. vou lê-lo até já não acreditar que foi comigo... com ele... talvez o leia quando acreditar em histórias de amor.
talvez até lhe escolha um final feliz. tão feliz que não se diz.
2 comentários:
Ama como a estrada começa
Um dia,
um lobo encontrou-se com um barco em alto-mar...
nem o barco sabe o nome do lobo, nem o lobo sabe o nome do barco...
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