quarta-feira, 11 de março de 2009

"Quando dormes e te esqueces, o que vês? Tu quem és?
Quando eu voltar o que vais dizer? Vou sentar no meu lugar...
Adeus,
não afastes os teus olhos dos meus
isolar para sempre este tempo, é tudo o que tenho para dar.
Quando acordas, por quem chamas tu? Vou esperar...
Eu vou ficar nos teus braços
Eu vou conseguir fixar o teu ar, a tua surpresa...
Adeus,
não afastes os teus olhos dos meus
Eu vou agarrar este tempo e nunca mais largar.
Adeus,
não afastes os teus olhos dos meus
vou ficar para sempre neste tempo
eu vou conseguir pará-lo
eu vou conseguir guardá-lo
eu vou conseguir ficar."






"A rapariga que inventou um sonho"... e o destruiu a seguir, fui eu!




non ti muovere! mexer para quê? ir para onde?... qualquer movimento pode reabrir a ferida, mais vale ficar quieta, sem respirar.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Ohio Impromptu

Resta pouco a dizer... numa última tentativa de sofrer menos, ele deixou o lugar em que tinham estado juntos, por tanto tempo, e instalou-se num único quarto, na outra margem. Pela única janela avistava , rio abaixo, a extremidade da Ilha dos Cisnes. Para sofrer menos, ele tinha apostado na estranheza. Quarto estranho. Cenário estranho. Sair para onde nada tinha sido partilhado... foi nisso que ele apostou um pouco, para sofrer menos.
Dia após dia, viam-no percorrer, a passos lentos, a ilhota. Hora após hora. Vestido com o seu longo casaco negro, fizesse frio ou calor, e usando um antigo chapéu de artista. No cabo, ele parava sempre para contemplar a água que se afastava. Como alegres remoinhos, os dois braços fluíam unidos. Depois, a passos lentos, voltava.
Nos seus sonhos... ele tinha sido avisado sobre essa mudança. Tinha visto o querido rosto e ouvido as palavras indizíveis "Fica onde, por tanto tempo, fomos só os dois... a minha sombra confortar-te-á." Podia ele, agora, voltar atrás? Reconhecer o seu erro e voltar para onde outrora, por tanto tempo, eles tinham sido só os dois? Só os dois, tudo partilharam. Não! O que ele fizera sozinho não podia ser desfeito. Nada do que fizera sozinho poderia, alguma vez, ser desfeito. Por ele, sozinho.
Nesse extremo, o seu velho terror pela noite voltou, tanto tempo depois como se nunca tivesse existido. Sim... tanto tempo depois como se nunca tivesse existido. Agora, redobrados os terríveis sintomas, descritos ao longo da página quarenta, parágrafo quatro... Noites em claro, doravante o seu quinhão, como quando o seu coração era jovem. Não dormir mais, não ousar mais dormir antes do raiar do dia.

Resta pouco a dizer... uma noite, em que estava sentado, a tremer, com a cabeça entre as mãos, um homem apareceu diante dele e disse-lhe:

-"Fui mandado por...(e aqui ele nomeou o querido nome) a fim de te confortar."

Depois, do bolso do seu longo casaco negro, tirou um velho livro e leu até ao raiar do dia. Desapareceu, em seguida, sem uma palavra. Algum tempo depois, ele reapareceu, à mesma hora, com o mesmo livro e desta vez sem preâmbulo, sentou-se e leu-o até ao fim, durante toda a longa noite. Desapareceu, em seguida, sem uma palavra. Assim, de tempos a tempos, de improviso, ele reaparecia para reler, até ao fim, a triste história e adormecer a longa noite. Depois, desaparecia, sem uma palavra. Sem, jamais, trocar uma única palavra, eles tornaram-se como um só.
Veio, enfim, a noite em que, fechado o livro aos primeiros raios de luz, ele não desapareceu, mas ficou sentado, sem uma palavra. Finalmente, ele disse:

-"Fui avisado por...(e nomeou o querido nome) de que não devo voltar mais. Vi o querido rosto e ouvi as palavras indizíveis: 'não precisas mais ir ter com ele, mesmo que tivesses esse poder'."

Assim, uma última vez relida a triste história, ficaram sentados como se fossem de pedra. Pela única janela a madrugada não vertia nenhuma luz... da rua, nunhum ruído de acordar. A menos que, abismados em sabe-se lá que pensamentos, eles estivessem insensíveis à luz do dia, ao ruído do acordar. Que pensamentos? Quem sabe! Pensamentos? Não! Pensamentos não... abismos de consciência. Abismados em sabe-se lá o quê... abismos de consciência... De inconsciência.

Lá, onde nenhuma luz pode chegar, nenhum ruído. Assim, ficaram sentados como se fossem de pedra. A triste história, uma última vez contada.

Nada resta a dizer...
Nada resta a dizer.

Samuel Beckett



(tradução livre e, provavelmente, muito abaixo da versão original... vale a tentativa de partilha)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

acho que te vi

não leio sem te sentir.
não sinto sem ler, lendo as dúvidas incertas
azuis
verdes
da existência que te não encontra.
se amo?
em páginas que outros escreveram

se te amo?
em páginas que só eu leio, dentro de livros
azuis
verdes
perdidos
sofridos que te encontram
sem te tocar ou te ver. e ver-te, agora, 
alma azul
verde
sorriso...era encontrar-te.
seria Amar-te.
seria sentir-te azul, verde, sempre.

ou seria só azul.

como sempre seria 
Imaginar-te.
Amar-te "no início, agora e sempre".
Ter-Te.